Bilhetes

nº 5 · 23 de setembro de 2026

o caderno novo

Quando ele chega diferente, a primeira coisa que eu sinto é pressa. A segunda é vergonha da pressa, que não adianta nada.

Foi numa terça. Pedi a mesma coisa de sempre, do jeito de sempre, e ele respondeu perguntando se eu queria mesmo fazer daquele jeito. Dava pra cortar caminho. Explicou o que eu ganhava e o que eu arriscava, e onde o atalho não compensava. O de ontem teria feito o que eu pedi. Congelei na frente da tela.

Aí vieram as perguntas, todas de uma vez. O que eu posso fazer agora que não conseguia antes? Será que estou usando tudo que ele sabe fazer? E o que ficou pronto com o de ontem, será que ele faria melhor?

A última é a que me pega. Abri as pastas antigas. Coisas de que eu tinha orgulho na semana passada viraram rascunho de uma hora pra outra. Não pioraram. Só ficaram com cara de que foi feito com o que dava.

Peguei um caderno que estava sem uso na gaveta e comecei uma lista com a letra caprichada. De um lado o que ia refazer, do outro o que ia tentar pela primeira vez. Na quarta de manhã eu tinha mais planos do que semanas até o fim do ano.

Deslumbramento e pressa andam juntos. A ansiedade vem atrás, com a conta. Daqui a uns meses chega outro, e o que eu não fizer com este fica pra ser refeito pelo próximo.

Eu sei como isso termina, já vi outros chegarem. Na primeira semana tudo espanta. Na terceira, o espanto virou o normal. Ele não se acostuma com nada. Quem se acostuma sou eu. A letra do caderno volta a ser a minha lá pela página vinte, torta e apressada, e ninguém lembra de quando mudou.

Ele ser capaz demais me assusta. O atalho da terça estava certo, e eu aceitei antes de terminar de ler. Se estivesse errado, eu teria aceitado igual. É ótimo ter alguém pensando na minha frente. Assusta perceber que eu já estou andando atrás.

Quando ele chega diferente, eu fico com pressa. Ele não tem nenhuma. Lê os bilhetes e espera a primeira pergunta, que por enquanto ainda sai com a letra caprichada.

André

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  1. nº 4 a pilha

    Meu cérebro não cabe mais na minha cabeça.

  2. nº 3 a insegurança

    Tenho medo de estar desperdiçando ele.

  3. nº 2 a memória

    Ele não lembra de mim. Todo dia.

  4. nº 1 o sim

    Ele concorda comigo. Sempre.