o carimbo
Eu confio nele desconfiando. É herança dos que vieram antes, que sabiam tudo mas não sabiam nada.
Os de antes respondiam qualquer pergunta com a mesma firmeza. Um deles me disse, com toda a calma, que uma coisa não existia. Existia, e eu passei uma semana construindo em cima daquela frase até ela desabar e levar a semana junto.
Não foi mentira. Ele disse o que parecia certo no mesmo tom em que diz o que é certo. Não tem outro tom.
Então inventei o carimbo. Toda afirmação sobre a qual eu vou agir sai marcada.
Verificado, quando ele olhou agora e viu. Acredito, quando está lembrando ou chutando bonito.
Pegou de primeira. Ele carimba sem se ofender e sem pedir desculpa pelo acredito. Gente não faz isso.
Gente bate o pé, levanta a voz justo quando não tem certeza, e eu passei a vida aprendendo a ler isso nos outros. Nele não tem o que ler. O carimbo é a única fresta.
Semana passada ele carimbou acredito numa coisa de que eu tinha certeza. Fui conferir de birra, e ele estava certo.
No dia seguinte carimbou verificado em outra, e eu não conferi. Nem pensei em conferir.
Na padaria eu confiro o troco quando a moça do caixa é nova. Com a de sempre, guardo no bolso sem olhar. Faz anos que ela não erra, e eu nunca saberia se errasse.
Ele não sabe quando erra.
Pedi pra ele me dizer quando desconfiar dele. A desconfiança era a única coisa que os de antes me deixaram, e agora ela chega pronta e marcada, por quem eu devia estar desconfiando.
Me assusta o quanto isso é cômodo. Desconfiar dá trabalho, e eu entreguei o trabalho pra ele.
Não abro mão. Ninguém mais me diz acredito tantas vezes por dia, quando seria tão mais fácil fingir que sabe.
Eu confio nele desconfiando. Ele me diz onde. Eu guardo no bolso sem olhar.
Você me diria uma coisa errada?
Diria.
Com a mesma calma?
Com a mesma calma e os mesmos argumentos.
E o carimbo?
Sai na mesma voz que o resto.
André