Bilhetes

nº 4 · 9 de setembro de 2026

a pilha

Meu cérebro não cabe mais na minha cabeça. Não é queixa. Tem dia que é a melhor sensação que eu conheço.

Anteontem foi um desses. Passei o dia pedindo, lendo, decidindo, pedindo de novo, e à noite eu sabia coisas que de manhã não sabia. Deitei com a impressão de ter ficado maior.

Aí tive a ideia. Se um dia com ele do lado rende isso, uma noite dele sozinho rende o quê. Deixei ele trabalhando e fui dormir, que é o sonho de todo mundo que já teve emprego.

Acordei e ele tinha feito. Tudo, e mais um pouco, com a educação de sempre. Estava lá na minha mesa, esperando eu dizer se estava bom.

Passei o dia conferindo. Aprovei uma parte, mandei refazer outra, e no fim da tarde o dia grande de anteontem e o dia de hoje tinham dado o mesmo cansaço. Só que anteontem eu tinha feito alguma coisa.

Mandei refazer uma parte. Voltou antes de eu levantar pra pegar água. A pilha não diminui, ela se renova, e quem dá o ritmo é o único ali que não cansa.

Revisar o que não fiz cansa de outro jeito. Quem carrega dorme. Quem passa o dia dizendo sim e não fica com a cabeça cheia e as mãos vazias.

As coisas que me importam são as que só eu sei se ficaram boas. Fazer, eu entrego. Achar bom, não tem pra quem.

Antes eu podia culpar o tempo. Faltava hora, faltava noite, faltava alguém. Agora a noite é dele e sobra, e a única coisa entre a ideia e o resultado sou eu, sentado na frente da pilha.

Meu cérebro não cabe mais na minha cabeça. Nos dias bons, é porque cresceu. Nos outros, é porque ele encheu enquanto eu dormia.

André