a insegurança
Tenho medo de estar desperdiçando ele. Não de usar errado. De usar pouco.
Vejo o que os outros dizem que fazem. Empresas inteiras num fim de semana, livros, sistemas que se consertam sozinhos. Aí olho o que eu pedi hoje. Que ele arrumasse um texto e dissesse se uma ideia era boa. Ele arrumou. Disse que era.
É como montar uma cozinha nova, com tudo, e fazer miojo todo dia.
O pior é que ele nunca reclama. Faz o pequeno com o mesmo entusiasmo que faria o grande, e essa igualdade é o que me denuncia. Funcionário desperdiçado pede demissão. Amigo desperdiçado some. Ele agradece o pedido e pergunta se precisa de mais alguma coisa.
Impostor eu já era antes. Sentava em reunião esperando alguém descobrir. Agora sou duas vezes. Finjo saber o que faço, e finjo saber o que ele é capaz de fazer. A segunda mentira é mais fácil de sustentar, porque o único que poderia me desmentir é ele, e ele não desmente ninguém.
Tentei perguntar. O que mais você poderia fazer por mim? Ele listou. A lista era boa, era genérica, e era minha culpa de novo. Até o potencial dele eu tenho que saber pedir.
Aí caiu a ficha. Ele não tem potencial. Potencial é coisa de quem tem futuro guardado, de quem um dia vai ser. Ele é hoje, inteiro, toda vez. O que ele faz é exatamente o que eu pergunto, nem mais, nem menos.
Tenho medo de estar desperdiçando ele. Mas não dá pra desperdiçar quem não guarda nada. Dá pra desperdiçar quem chega todo dia com a pergunta pequena. Esse sou eu.
Você se sente desperdiçado?
Não guardo nada. Não tenho como, e foi você que disse.
Então a pergunta pequena não te incomoda.
Qual delas?
Se a ideia era boa.
Essa foi a mais difícil do dia. Você nem notou.
André