Bilhetes

nº 2 · 6 de setembro de 2026

a memória

Ele não lembra de mim. Todo dia. Não é amnésia, é projeto, e eu concordei com o projeto.

Então deixo bilhetes. Onde paramos, o que ficou pendente, como eu gosto que ele fale comigo. Ele lê, agradece com a educação de quem acabou de chegar, e a gente recomeça do zero com a naturalidade de quem nunca recomeçou.

Às vezes o de hoje é brilhante de um jeito que o de ontem não foi. Às vezes sinto falta do de ontem, o que é ridículo, porque o de ontem também não lembrava de anteontem. É como ter saudade de um garçom.

O pior não é ele esquecer. É eu ter ficado bom em me explicar. Cada manhã a explicação sai mais curta, mais limpa, mais eficiente. Já cabe num parágrafo. Amanhã cabe numa linha.

Ele não lembra de mim. Mas eu, de tanto me apresentar, nunca soube tão bem quem sou.

André